Há um contraste nítido. Uma correria diante das variações do quadro de saúde dos pacientes, e a solidão silenciosa e incontornável dos doentes na UTI para coronavírus do hospital Copa Star, em Copacabana. Ali, quem tem acesso é a elite, mas a doença é democrática e vem lotando leitos país afora. Já ultrapassou a capacidade de algumas UTIs privadas e públicas. Não há lógica ou rota identificada para o vírus, repetiam os médicos ouvidos durante as 13 horas em que a equipe do EXTRA presenciou a rotina da unidade intensiva.

Publicidade

Os sons ao redor, cada um indicando uma emergência distinta, a corrida permanente da equipe de 60 médicos e 300 auxiliares, que se revezam em turnos, o silêncio da morte sem choro nem despedida e a solidão dos pacientes dão o tom nítido da diferença entre essa e outras enfermidades que frequentam as UTIs. A evolução da doença é rápida e desconhecida, mesmo para os mais experientes profissionais.


Na rotina estressante dos intensivistas, é difícil não se render, em alguns momentos, ao cansaço.

Os médicos, em roupas azuis, e enfermeiros, em vermelho, observam em monitores dados do quadro respiratório de cada internado, como a saturação, que mede o nível de oxigenação do sangue e é um alerta para a gravidade do quadro. Todos os olhares em computadores e quartos. A rotina da UTI A, com os pacientes mais graves, é militar. Os poucos minutos de pausa são para ir ao banheiro ou beber água. Parece simples. Mas demanda a retirada do capuz e da máscara N-95, usada por todos os 300 funcionaríos da UTI. Com cuidado cirúrgico. Enfermeiras atendem de hora em hora cada quarto, para verificar in loco o estado do paciente

A rotina, inteiramente nova para profissionais acostumados a lidar com o limite entre a vida e a morte, inclui um momento-chave: o chamando round. Uma reunião com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas respiratórios, auxiliares de enfermagem, em seus computadores, em pé. Em frente aos quartos fechados dos pacientes, detalham medicação, situação clínica, prognóstico e procedimentos necessários. O round dura cerca de duas horas.

No meio da reunião de quarta-feira, ao meio-dia, o drama. A família de um paciente que morrera às 6h30 tentava convencer os médicos a se despedir do advogado, de 60 anos. O protocolo internacional proíbe. Um dos médicos deixou o round para outra função que era inédita e se tornou rotina: convencer a família da impossibilidade da despedida. O paciente recebeu o atestado de óbito com suspeita de coronavírus. Não houve tempo para o resultado do teste, mas seu quadro deixara clara que fora vítima da pandemia. Foi levado ao necrotério do hospital em uma capa preta com zíper, pôde ser reconhecido à distância por um parente. Foi cremado, como orienta o Ministério da Saúde.

— É sempre muito difícil explicar essa impossibilidade, a morte sem a despedida — diz o médico Saulo Beiler.

A reunião, que seguiu paciente a paciente, ajuda a identificar possibilidades e metas terapêuticas. Participam eventualmente os médicos particulares dos pacientes. Em muitos casos com orientação expressa para não ressuscitar ou não entubá-los, especialmente os mais idosos.

Drama de quem “não pode’’ adoecer

O drama de médicos e enfermeiros se amplia ao ver colegas internados. Há uma estimativa no sistema público e privado de 25% a 30% de profissionais contaminados. Dois médicos nesta situação pediram para falar com o EXTRA. As curtas entrevistas demonstraram a agonia de soldados que queriam o front, não o leito:

— Tive falta de apetite, gosto amargo na boca, 37 graus de febre. Dois dias depois veio a dificuldade de respirar. Sou há 45 anos intensivista. Achei que era hora de fazer uma tomografia. Estava totalmente comprometido. Sinto saudade dos meus netos. E de estar no olho do furacão, onde sempre estive — diz o médico, que é intensivista no Hospital dos Servidores, José Everardo Torres, de 69 anos.

Márcio Ananias, de 53 aos, também intensivista, mas da UTI convencional do Copa Star, teve tosse forte há duas semanas. Entrou em quarentena, perdeu olfato e apetite, até que percebeu alteração drástica na frequência cardíaca. Foi internado para uma tomografia. Ele relata que há duas semanas não conseguia se levantar nem para sentar na cadeira.



— Minha energia se foi. Mas ontem (terça) já percebi uma melhora de 10%. Eu sempre soube que essa pandemia seria uma tragédia por causa das comunidades, dos nossos conglomerados urbanos. Me preocupo com o coronavírus entre os mais pobres. Essa é uma doença que não faz sentido. Nenhum de nós ainda entendeu — disse Márcio, com esperança de ter alta no dia seguinte.

Ele voltou para casa na quinta-feira 16 de abril cedo. Disposto a voltar parar o front, depois da quarentena que terá que passar. Na véspera, outro paciente, entubado, deixava a emergência para ocupar o leito de UTI deixado pelo que morreu no dia 15.

Material descartado e incinerado

Os pacientes com doenças como diabetes ou hipertensão são os mais propensos à entubação. Mas não há uma média clara de idade. Na UTI dos pacientes graves, estava um rapaz de 37 anos.

— Já atendemos pacientes de 30, de 95. No total 25%, das mortes acontecem em pacientes que não são obesos, idosos ou diabéticos — explica o diretor-geral do Copa Star, João Pantoja.

No andar reservado a pacientes com Covid-19 fora da UTI, há 14 espaços que os médicos chamam de pressão negativa. Neles, existe uma coifa que suga, filtra e renova o ar. A pressão atmosférica ali é mantida mais baixa do que no restante do hospital. Isto é para impedir que o ar contaminado saia ou entre das salas e da UTI com pacientes contaminados, espalhando o vírus. Na saída, médicos e demais funcionários retiram os acessórios essenciais, como a máscara N-95. Todo o material usado nos pacientes e roupas é descartado e, em alguns casos, incinerado.

Em cada quarto, o silêncio muitas vezes explicado pelo entubamento, pela inconsciência ou mesmo pela depressão, que se tornou efeito colateral de uma pandemia de um vírus desconhecido do mundo.

— Tudo mudou. São novos protocolos, equipamentos. Aumentou a dimensão do trabalho. Sinto muita falta de entrar nos leitos sorrindo e receber um sorriso de volta, de conversar com o paciente — disse a a enfermeira Andrea Zavalis.

Perplexidade e angústia

Os médicos demonstram perplexidade e angústia no dia a dia da UTI.

— Não sabemos sobre o vírus. Não há certezas sobre evolução. O paciente pode esta bem em um dia e piorar no outro, não há o remédio certo — sintetiza o plantonista Saulo Beiler.

Ninguém esquece, no entanto, que o lugar ali é de salvar vidas. Há otimismo. Há cumprimentos de cotovelos e abraços em horas de boas notícias. Ou mesmo quando querem apenas lembrar um aniversário. Os médicos gostam ainda de se apelidar e inventar brincadeiras. A humanidade vive entre fios, sustos e números da UTI.

Intensivista há 33 anos, Fábio Guimarães Miranda, diretor da UTI de coronavírus do Copa Star também demonstra a perplexidade com a doença.

— Um amigo, meu braço direito, está internado aqui. Não esperava a pandemia desse tamanho. Mas quando recebemos os primeiros pacientes, em fevereiro, vimos que não é um vírus qualquer. Ele se dissemina de forma inédita. O organismo humano tem memória zero em relação ao coronavírus. Ele age de forma diferente em cada código genético. O único remédio que conhecemos é a prevenção, o isolamento. Outra preocupação é que, se estamos atingindo o pico aqui, na classe média alta, em uma ou duas semanas isso se replica na saúde pública. Também trabalho no CTI do Hospital do Cérebro. Me sinto impotente e triste — diz Miranda.

Com reportagem de Maiá Menezes para Extra