Ministro da Saúde recomendou que a população faça seus próprios utensílios de defesa contra o vírus



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Desde terça-feira (31), o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem feito menção à ampliação do uso de máscaras para mais camadas da população, além dos profissionais da saúde. Nesta quinta-feira (2), Mandetta voltou a reforçar a utilização de equipamentos caseiros feitos com tecido, opção já ventilada no dia anterior. 

— Gente, máscara de pano ou máscara comunitária. Isso não tem muita regra. Posso colocar ali (no site) uma sugestão, uma coisa básica. Você pode fazer uma máscara com barreira de tecido. Usar um tecido grosso. Não precisa ir para especificações técnicas, de tem de ser o tecido A, B ou C. O que a gente usa com mais propriedade nos ambientes de saúde é o TNT (tecido-não-tecido) — afirmou, em encontro com jornalistas. 

O assunto foi o grande centro das discussões desta quinta-feira. O próprio ministro da Saúde admitiu o grande número de questionamentos sobre o tema encaminhados à pasta. Mandetta reforçou que um material com recomendações e dicas sobre essa produção está no site do ministério. 

Diante da demanda, o Ministério da Saúde deve lançar, na sexta-feira (3), uma campanha nas redes sociais para estimular a população a fazer suas próprias máscaras de pano. Um vídeo no estilo “faça você mesmo” deve fazer parte dessa iniciativa. 

Em cartilha publicada no site, destacando que esse tipo de máscara serve como barreira, o governo informa que o dispositivo  tem de ser individual e ter pelo menos duas camadas de pano. A cartilha também reforça que o material deve ser utilizada por duas horas no máximo, sendo intercalado com outra unidade, e lavado para reutilização.


Falta de estudos sobre efetividade

A Sociedade Brasileira de Infectologia prepara um documento sobre o tema. Conforme apurou a reportagem, o texto deve se posicionar a favor dos produtos como método de barreira, não de proteção. Entre os especialistas, o item caseiro carece de estudos técnicos que garantam sua efetividade. Embora compreenda a recomendação de Mandetta, Luciano Goldani, professor titular de infectologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), alerta para a falta de evidências que comprovem a eficiência desses equipamentos. 

— Ele tem boa intenção. Está tentando proteger a população, está preocupado com a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs). Mas, do ponto de vista técnico, precisamos de mais dados sobre esses materiais — avalia. 

Fora a ausência de comprovação de eficiência desses materiais, o infectologista do Hospital Nossa Senhora da Conceição André Luiz Machado acrescenta que, diferentemente dos outros modelos, a máscara de tecido tende a ficar úmida com mais facilidade, o que prejudicaria sua eficácia. Além disso, não tem poder de filtragem, o que reduz a proteção. 

— A barreira do tecido reduz a eliminação de gotículas e oferece uma certa proteção. Não acho que o ministério esteja errado em mudar o posicionamento, pois trabalhos mostram que em países onde o uso de máscaras é mais frequente, como o Japão, houve menos casos. Mas, paralelamente, deve haver um esforço de conscientização das agências de saúde para explicar como a máscara deve ser usada e tirada. Vejo no supermercado as pessoas com as máscaras só na boca. Isso gera uma falsa sensação de proteção — pondera. 

Sentindo-se protegida, a população pode relaxar nos cuidados mais essenciais, como lavagem de mãos, uso de álcool gel, distanciamento e etiqueta respiratória, temem os especialistas.  

Modo de uso e descarte são fundamentais 

Outro ponto delicado da recomendação do ministro diz respeito ao manuseio dessas máscaras tanto na hora de vesti-las quanto de tirá-las e descartá-las, sublinha o docente da UFRGS. Segundo Goldani, para evitar a contaminação, é imprescindível lavar muito bem as mãos antes de colocar o equipamento e depois de tirá-lo:

— Tem a questão de que o indivíduo pode se contaminar no uso dessas máscaras. A uso e não sei onde colocar, como vou descartar? Como colocar? Há toda uma didática do uso. 

No entanto, Goldani diz que profissionais que necessitam de contato com diversas pessoas no seu ambiente de trabalho, como os motoristas de ônibus citados por Mandetta na terça (31), têm recomendação de proteção. Porém, deveria ser feita com equipamentos dentro das normas da Anvisa. 

— Para quem nunca usou máscara, é difícil se adaptar neste momento sem se contaminar. Vai colocar a mão em frente ao EPI, vai usar errado, trazendo mais prejuízo do que benefício — esclarece Machado, reforçando, mais uma vez, que medidas de higiene das mãos e etiqueta respiratória ainda seguem como as mais importantes para esses grupos de trabalhadores. 

O que recomendam lá fora 
Sem alterar o discurso adotado desde o início da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) segue recomendando o uso de máscaras apenas para pessoas com sintomas condizentes com o coronavírus ou para aquelas que cuidam de pacientes com a covid-19. Na Itália, epicentro da doença na Europa, o governo mantém a recomendação da OMS. 

Com uma explosão recente no número de casos, chegando a cerca de mil por dia e mais de 5 mil mortes no total, os Estados Unidos também avaliam uma mudança na recomendação do uso das máscaras. O diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), Robert Redfield, admitiu que a política de utilização pode ser ampliada, tendo em vista o aumento no número de casos no país e considerando os assintomáticos, que mesmo sem sinais podem transmitir o vírus. 

Outros países europeus já tornaram o uso de máscaras obrigatório em locais públicos. É o caso da Áustria e da República Checa. Pelo Twitter, o chanceler austríaco Sebastian Kurz anunciou, na segunda-feira (30), que as máscaras estavam entre as medidas tomadas pelo governo para reduzir a propagação do coronavírus. Ele explicou que o equipamento não deve ser igual ao usado por profissionais da saúde e destacou que o seu uso não invalida a orientação de manter o distanciamento entre as pessoas. 

Na vizinha República Checa, desde 18 de março o uso de máscaras é obrigatório nas ruas. Em um documento com perguntas e respostas sobre o coronavírus, o Ministério de Saúde do país destaca que "há obrigação de usar equipamento de proteção respiratória ao circular em todos locais fora de casa. A máscara pode ser o modelo clássico descartável, feita em casa com tecido ou mesmo um xale ou manta. Se todos usarem máscaras, podemos reduzir a propagação do coronavírus. Tudo o que você precisa fazer é lembrar uma regra simples: minha máscara protege você, sua máscara me protege". 

Na opinião de Machado, mantas, lenços ou xales têm as mesmas funções das máscaras de tecido, porém, como não possuem cordinhas para amarrar na cabeça, o uso pode se tornar ainda mais problemático.

O governo da Índia, um dos países com maiores restrições de circulação em razão do coronavírus, lançou um manual sobre o uso e a fabricação de máscaras caseiras.

Na China, assim como em outros países asiáticos, o uso de máscaras é mais maciço entre a população. No site do governo chinês, há uma cartilha indicando como utilizar e qual o tipo de máscara adequado para cada tipo de situação. 

Em uma entrevista à Science Magazine, George Gao, diretor-geral do Chinese Center for Disease Control and Prevention (CDC), afirmou que o maior erro dos países que enfrentam o coronavírus é não adotar o uso de máscaras. 

— O vírus é transmitido por gotículas e contato próximo. As gotículas têm um papel importante na disseminação. Você precisa usar a máscara porque, quando você fala, sempre há gotículas saindo da sua boca. Muitas pessoas são assintomáticas — defendeu.

Com informações de Gaúchazh