Doria muda na pandemia

No dia 25, após o feriadão que era a última alternativa antes do "lockdown", Doria surpreendeu falando em abertura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Foi em 20 de maio que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que já tinha um protocolo de "lockdown" pronto: "Se nós não tivermos solidariedade, os índices crescerem ainda mais, e colocarmos em risco a vida das pessoas, seremos obrigados a adotar o 'lockdown'."

No dia 25, após o feriadão que era a última alternativa antes do "lockdown", Doria surpreendeu falando em abertura. O governo anunciou a "nova fase do Plano São Paulo, que prevê a retomada das atividades econômicas a partir de critérios técnicos".

A mudança radical de discurso de uma semana para outra reforçou a tese de que o governador cedeu a pressões e colocou a ciência de lado ao tomar a decisão.Até então Doria, que busca ser candidato à Presidência da República em 2022, vinha sendo o grande antagonista de Jair Bolsonaro (sem partido), ao defender o isolamento recomendado por cientistas enquanto o presidente minimiza o vírus e prega abertura.

Na opinião de aliados do governador ouvidos pela reportagem, Doria erra ao anunciar abertura agora. Mas os tucanos não arriscam dizer se o aparente abandono da ciência vai custar a popularidade conquistada ao fazer oposição a Bolsonaro –membros do governo paulista apostam que não.


Tudo depende, segundo os políticos, do resultado do relaxamento da quarentena no estado. Se a crise sanitária for agravada, o capital político obtido ao longo da pandemia pode ir por água abaixo.Especialistas criticam a abertura anunciada em São Paulo enquanto os números de contaminados e de mortos ainda crescem. O relaxamento da quarentena em outros países se deu somente quando a curva começou a decair e não antes de atingir seu pico.

Tucanos afirmam que Doria cedeu a pressão do setor de shoppings e se orientou em pesquisas de opinião pública ao anunciar o Plano São Paulo, que divide as regiões do estado em fases de retomada das atividades econômicas.

Para esses aliados, o governador não deveria ter falado em abertura na semana seguinte à ameaça de "lockdown" –o ideal seria ter dado mais tempo, anunciando o relaxamento apenas em junho.Ainda na opinião de alguns políticos, a população ficou sem entender a postura de Doria e o governador não deve menosprezar esse registro na memória do paulista.

O governo vê a flexibilização da quarentena chancelada por médicos após a demonstração de que a doença desacelera no estado. Membros da gestão argumentam que o isolamento não foi orientado ideologicamente para enfrentar Bolsonaro e tampouco a abertura segue politicagem.

A gestão afirma que não houve perda de apoio popular e que a retomada demonstra equilíbrio. A equipe de Saúde bate na tecla de que não se trata de uma liberação geral, mas de abertura com regras de higiene e sem aglomeração.

A flexibilização colocou Doria e o prefeito Bruno Covas (PSDB), que deve concorrer à reeleição neste ano, em rota de colisão, com divergências sobre o momento e a forma de retomada. Um dos desentendimentos, como mostrou o Painel, se deu porque a prefeitura planejava a reabertura de restaurantes antes dos shoppings, o contrário do que foi feito pelo estado.

Secretários dos tucanos, porém, minimizam e dizem que prefeito e governador atuam unidos. A orientação do PSDB foi de contornar a divergência e não torná-la pública, seguindo a avaliação de que Covas não pode opôr-se a Doria pois precisa dele na campanha.

Governantes que enfrentam o mesmo dilema entre manter o isolamento ou intensificá-lo ou reduzi-lo ponderam que qualquer decisão vai desagradar a boa parcela do eleitorado. No caso de Doria, porém, a avaliação é que o governador criou factoides e balões de ensaio para aparecer na mídia –falou em medidas, mas não as executou.

A ideia do "lockdown" foi abandonada, mas a abertura também não se completou. Na capital, Covas ainda negocia com comerciantes planos para o funcionamento parcial das atividades.

Ao mesmo tempo, governantes apontam que é difícil manter a quarentena por muito tempo e que o isolamento no Brasil, por ser feito contra a vontade de Bolsonaro, é menos eficiente –retardando o alívio da retomada visto em outros países e elevando a pressão econômica.J

á membros do governo afirmam que a pressão do setor produtivo é intensa e constante desde o início da pandemia e, portanto, não foi determinante para a reabertura. O governo aponta a retomada como uma decisão técnica, baseada na queda do ritmo de contágio e no desafogamento da rede de saúde.

Nesta segunda (8), Doria anunciou que o total de respiradores entregues até agora chegou a 1.627 e que outros 1.000 serão entregues até o fim do mês, o que permitiu abrir leitos de UTI e diminuir a taxa de ocupação hospitalar, que já batia mais de 90%, para 67,5%. Na região metropolitana, a taxa é de 75,5%.

A capacidade de testagem também se ampliou no estado, de 1.000 testes ao dia para 30 mil, o que deve fazer crescer o número de casos.

Baseado nessas informações, o governador voltou a defender a abertura como uma medida técnica. Ele definiu o Plano São Paulo como "cuidadoso, faseado, seguro e sob orientação da saúde"."Não tomamos aqui iniciativas de ordem política ou por decisão pessoal, personalizando, seja no populismo, seja na vantagem, seja no benefício ou seja na pressão que é oferecida por setores que querem abrir e não poderão fazê-lo exceto dentro do que estabelece o Plano São Paulo", disse.

Desde que a flexibilização foi anunciada, Doria e sua equipe de saúde têm respondido com frequência a perguntas de desconfiança sobre a quarentena mais frouxa.

Dentro do esforço de contrapor-se a Bolsonaro, o governador cercou-se de nomes de peso da medicina em entrevistas e montou um comitê de combate ao coronavírus.

Esses médicos e o secretário de Saúde, José Henrique Germann, que antes defendiam o isolamento, agora afirmam que a retomada é segura –sobretudo devido ao aumento de respiradores e às restrições que ainda serão impostas nos comércios reabertos.

O aparato técnico de Doria busca minimizar a tese de que o governador desviou-se da ciência, mas mesmo dentro da equipe há divergências.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na semana passada, Marcos Boulos, professor de medicina da USP e integrante do comitê de contingenciamento do coronavírus no estado, disse que se só a questão sanitária fosse levada em conta, a reabertura gradual deveria esperar mais algumas semanas.