Flexibilizar o distanciamento e compartilhar o passeio em tempos de pandemia virou uma decisão que envolve bom senso, moral e prudência                    

O número de vítimas do novo coronavírus bate recordes dia após dia. Profissionais de saúde estão esgotados, trabalhadores têm medo do vírus e do desemprego e pessoas do grupo de risco sofrem com o isolamento. Está todo mundo travando uma batalha para manter a sanidade física e mental. Além das consequências diretas da pandemia, no chamado “novo normal”, ninguém sabe se pode ir à academia, cortar o cabelo, tirar uns dias de férias, visitar um amigo ou postar a escapada nas redes sociais.             

Retomar a vida é um assunto complexo e que, vira e mexe, movimenta debates, sobretudo nesses espaços.

Segundo o psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), a forma como o Brasil conduziu a crise de saúde inseriu decisões a respeito do tema em uma esfera ética e moral. Justamente por isso, tem sido tão difícil lidar com elas. “Aprendemos a fazer sacrifícios e escolhas polares em que os prêmios e as consequências são muito claros. Não é mais o caso”, explica o professor. 

Dunker confirma que o momento é delicado do ponto de vista da saúde mental e sugere que cada pessoa avalie os próprios limites com critério. Será preciso, daqui para frente, agir com “risco e prudência”, entendendo as consequências de cada ato. “Nossos limites para sustentação de sacrifícios são variáveis. Eles são relativos ao tipo de sofrimento de cada um, ao manejo de angústias que cada um tem, às necessidades materiais”, pondera.


Evaldo Stanislau de Araújo, médico infectologista do Hospital das Clínicas da USP e membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia tem uma posição semelhante. Ele defende que existem várias formas de amenizar o esgotamento causado pelo contexto atual sem, necessariamente, colocar alguém em risco.                  

“A saúde é um estado de bem-estar físico e emocional. Se estamos falando de um nível de sofrimento mental muito agudo, então, estamos falando de pessoas que não estão saudáveis. E elas não devem se sentir culpadas ao buscar formas de socializar. Agora, socializar em uma caminhada, de máscara, ao ar livre, é diferente de reunir os amigos para uma happy hour”, opina o professor.

EVALDO STANISLAU DE ARAÚJO, INFECTOLOGISTA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA USP

Ele acredita que algumas atividades possam ser retomadas com prudência e protocolos já conhecidos. Entre elas, cortar o cabelo, sair para comprar um mantimento e se exercitar ao ar livre. No entanto, pondera sobre encontros entre amigos. “É um aspecto moral. Apesar desse apelo ao retorno da normalidade, não podemos esquecer que cerca de 1.000 brasileiros morrem todos os dias por Covid-19. Não estamos em clima festivo”, defende o médico.

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