'Amor de Índio', 'Canção do Novo Mundo' e 'O Sal da Terra' estão no repertório do show, que terá participações de Samuel Rosa e Rogério Flausino

Quase ao fim da entrevista, Beto Guedes, 69, admite: ao fazer sua primeira live, ele terá de lidar com um certo desconforto causado pela parafernália própria desse tipo de transmissão online de shows, tão popular – e a única forma possível – agora em tempos de pandemia. “Sei lá, fico um pouco… Esse negócio de muitas câmeras em um lugar pequeno sem público me assusta um pouco, vamos ver como fica”, comenta o músico no fim da tarde da última quarta-feira (2), quando já estava em meio a produções, elaboração de roteiro e outros arranjos necessários para o esquema todo funcionar. “Estamos ansiosos, na batida, trabalhando, ensaiando. Vai dar tudo certo”, conta.


Aliás, sobre a pandemia, Beto diz, bem-humorado: “Ela trouxe caos a todos os cidadãos. O mundo todo parado? Nunca vi uma coisa dessa na vida. Esse 2020 está por fora, podíamos ter pulado este ano no calendário”. Neste domingo (6), após algumas pequenas participações em shows de outros artistas, Beto Guedes faz sua primeira live (detalhes no fim da matéria) desde o início da quarentena, palavra e ritual que ainda fazem parte dos nossos dias. O que o público de casa verá é um show de duas horas recheado pelos lados A de uma carreira de mais de 40 anos desse mineiro de Montes Claros, integrante do time do Clube da Esquina, cantor, compositor e multi-instrumentista.

“Amor de Índio”, “O Medo de Amar É o Medo de Ser Livre”, “Sol de Primavera”, “Feira Moderna” e “Cantar” (essa de seu pai, Godofredo) são algumas das canções que figuram no repertório da live, assim como “Canção do Novo Mundo”, parceria com Ronaldo Bastos. O tema, música de Beto e letra de Ronaldo, lançado no álbum “Contos da Lua Vaga” (1981), é um belo tributo a John Lennon, cujo assassinato completa 40 anos em dezembro.


“Quem souber dizer a exata explicação/ Me diz como pode acontecer/ Um simples canalha mata um rei/ Em menos de um segundo/ Oh, minha estrela amiga/ Por que você não fez a bala parar?”, diz um trecho. “A morte do John foi uma coisa muito doida, ninguém imaginava que fosse assassinado estupidamente, do nada. Quarenta anos! O tempo voa”, reflete.

É impossível falar da carreira de Beto Guedes – e da música do Clube da Esquina – sem mencionar os Beatles. O cantor teve duas influências que ajudaram a definir sua música. Com a obra de seu pai, o compositor Godofredo Guedes, ainda na infância em Montes Claros, Beto tomou gosto pelo chorinho e pela música popular. Tempos depois, já em Belo Horizonte, em meados dos anos 60, o álbum “A Hard Day’s Night”, que lhe foi apresentado por um vizinho, filho dos Borges, o Lô.



“Meu primeiro contato com música foi pelo meu pai, depois vieram os Beatles, eu já sabia tocar violão, tinha uma certa habilidade, e eles foram uma coisa maravilhosa para mim. Virei beatlemaníaco, sabia todas as músicas, todos os solos”, conta o compositor.

Convidados

A live de Beto Guedes terá algumas participações especiais. Samuel Rosa vai interpretar a canção “Quatro”. Já Rogério Flausino coloca sua voz em “O Sal da Terra” e repete a tabelinha que ele e Beto Guedes já fizeram no palco. A cantora Carolina Lima gravou recentemente “Sol de Primavera”, versão que Beto adorou, e também vai fazer parte da live. “Pensei em convidar algumas pessoas para dar uma mexida nessa live, e eles toparam. É uma galera que eu gosto muito, são meus chapas, sou fã deles. Será um encontro de gerações, uma troca legal de referências e experiências”, conta.

Ambiente remete à aviação

Realizada no Minério de Ferro, estúdio da banda Jota Quest localizado em Belo Horizonte, a live vai acontecer em um ambiente preparado em sintonia com o conceito Beto Guedes aviador. A aviação, desde os tempos de criança em Montes Claros, é uma das paixões do músico. “Eu tinha uns 4 anos e via meu irmão, Zeca, e os amigos dele se reunirem lá em casa nos fins de semana. Eles levavam os aeromodelos e saíam para voar. Aquilo foi uma referência forte”, lembra o compositor. O sonho de voar foi além das miniaturas de aeronaves.

Quando completou 40 anos, Beto tirou o brevê, documento que dá permissão para pilotar aviões, tornou-se um piloto e comprou um ultraleve básico, com o qual não ficou muito tempo. Depois de arquitetar dezenas de aeromodelos, ele construiu seu próprio avião, um teco-teco batizado “Paulistinha”. “Levei anos para fazer. Fico brincando: ‘Eu sou um maluco, como invento de fazer uma coisa dessas? É muito complicado!’. Um belo dia, fiz um voo nele”, diverte-se. Beto Guedes acabou vendendo seu xodó para uma pessoa em Lagoa Santa, onde ele acredita que Paulistinha ainda esteja.


E quando o assunto é a habilidade com as mãos, o músico também mostra dom pela marcenaria, também influência do pai, que tinha uma oficina em casa. “Montes Claros definiu muitas coisas na minha vida”, ele diz. De vez em quando, o compositor ataca de luthier: “Já fiz algumas guitarras para o Samuel Rosa, para o Lô”.

Fique ligado

A live de Beto Guedes acontece neste domingo (6), às 17h, e será transmitida pelo canal do músico no YouTube. Em meio às canções, serão exibidos vídeos de Ivete Sangalo, Paula Toller e Toni Garrido mandando mensagens de carinho ao mineiro. A apresentação online também tem caráter solidário: o público poderá fazer doações para a campanha “Salve a Graxa”, que apoia profissionais de equipes técnicas de eventos, como técnicos de áudio, vídeo e iluminação, carregadores e roadies.

Com reportagem de Bruno Mateus para O Tempo