Documento de 117 páginas foi enviado a órgãos que atuam contra a Covid-19 

O Ministério Público Federal (MPF) emitiu uma nota técnica em que apoia o uso de drogas como a hidroxicloroquina e a invermectina no tratamento precoce da Covid-19.

O texto foi preparado pela sucursal da promotoria em Goiás e é assinado pelos médicos infectologistas Ricardo Ariel Zimerman e Francisco Eduardo Cardoso Alves, pela biomédica Rute Alves Pereira e Costa; e pelo psicólogo Bruno Campello de Souza. O material foi encaminhado a órgãos e instituições relacionados ao enfrentamento da pandemia do novo coronavírus

Segundo o documento, que tem 117 páginas, haveria evidências científicas que comprovem os benefícios do uso desses remédios --o conteúdo considera como "tratamento inicial" como aquele iniciado até e incluindo o quinto dia do início dos sintomas da doença.


A nota técnica do MPF afirma que "exigir, para uma doença nova no planeta Terra, causada por um novo agente vivo em nosso ecossistema, então desconhecido, que apenas tratamentos com estudos de nível máximo de pureza científica (ECR [Ensaios Clínicos Randomizados controlados por placebos]) possam validar algum tipo de abordagem terapêutica não é apenas inadequado, mas é irreal e demonstra desconhecimento dos princípios da própria Medicina Baseada em Evidências (MBE), que apregoa a aplicação da melhor pesquisa disponível aos cuidados clínicos, o que requer a integração de evidências com a experiência clínica e os valores do paciente".

"Em geral, no momento de se fazer recomendações terapêuticas, há uma tendência natural a se favorecer a inclusão de estudos formalmente publicados em periódicos médicos que utilizem processo de 'revisão por pares'. No entanto, tem se tornado cada vez mais comum os estudos preprints, que são manuscritos depositados em servidores web que comunicam resultados de pesquisa com acesso aberto antes da avaliação de um periódico 'revisado por pare'", segue o texto.

O documento afirma que o "conceito de tratamento inicial é algo controverso na literatura". "Muitas vezes 'casos leves', porém de apresentação tardia, são considerados como sinônimos de 'tratamento precoce ou inicial'. Esta interpretação não tem fundamento biológico e tende a levar os desfechos dos estudos rumo à não refutação das hipóteses de nulidade, já que o efeito antiviral será menos relevante quando a replicação for menos importante na gênese dos sintomas e das eventuais complicações".

O MPF aponta no material que a "aplicação de políticas de 'tratamento inicial' em larga escala já foi realizada em outros países do mundo" e que "há diversos protocolos de sucesso na temática do tratamento inicial no Brasil e no âmbito internacional.

Não há evidência na literatura médica que comprove a eficácia do chamado 'tratamento precoce' contra a Covid-19. A eficácia de um tratamento só pode ser realmente comprovada com estudos científicos que usam uma metodologia rigorosa

Para isso, são necessárias duas características principais: randomização (ou seja, a escolha aleatória dos pacientes) e ser duplo-cego (quando nem os médicos nem os pacientes sabem quem está recebendo o remédio ou o placebo). Também é preciso que os resultados sejam publicados em uma revista científica, o que só ocorre depois da revisão dos dados por especialistas no assunto. As pesquisas feitas sob essas condições não mostraram benefício na aplicação do "tratamento precoce" para pacientes infectados pelo novo coronavírus.

Em julho do ano passado, cientistas brasileiros publicaram um artigo no The New England Journal of Medicine (NEJM) mostrando que hidroxicloroquina, combinada ou não com azitromicina, não trouxe qualquer benefício para pacientes leves ou moderados com —​Covid-19 ou seja, a doença se desenvolveu da mesma forma para os que tomaram o remédio e para os que receberam placebo.

Da coluna de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo