Único músico presente em todas as formações do cultuado grupo da década de 1970, Sérgio Hinds assina o texto com Nelio Rodrigues.

♪ Grupo de rock cultuado na década de 1970 por conta dos álbuns Criaturas da noite (1975) e Casa encantada (1976), O Terço passou por várias mutações no som e na formação. Mas nunca deixou de contar com o guitarrista e cantor Sérgio Hinds em qualquer uma das múltiplas formações.


Não por acaso é Hinds quem conta a história da banda em O Terço – 50 anos, livro lançado neste primeiro semestre de 2021 e assinado pelo artista com Nelio Rodrigues, autor de vários livros sobre rock.
Com texto objetivo, escrito sem firulas e sem a intenção de ostentar estilo, os autores repisam os caminhos trilhados pelo Terço desde que a banda – que por pouco não se chamou Os Libertos (nome que, no Brasil ditatorial de 1970, poderia sugerir tomada de posição política) e Santíssima Trindade (nome desaconselhado por padre que ofertou terço aos músicos) – entrou em cena em festival realizado em Juiz de Fora (MG) entre 30 de maio e 1º de junho de 1970.
Originário de grupos formados no fim dos anos 1960, O Terço acabou vencendo o festival mineiro ao defender a música Velhas histórias (Guttemberg Guarabyra e Renato Corrêa, 1970). Começou ali trajetória de início pavimentada pelo carioca Hinds (então no baixo) com o amazonense Vinicius Cantuária na bateria e com o paulista Jorge Amiden (1950 – 2014) na guitarra.
Foi com essa formação que, no embalo da vitória no festival, o trio gravou o primeiro álbum, intitulado O Terço e editado em junho de 1970 com o selo da gravadora Forma (então já atrelada à Philips) e com repertório autoral que flertava com a MPB, a música country e o funk sem diluir a pegada roqueira.
E o resto foi história contada por Hinds e Nelio Rodrigues ao longo de 212 páginas ilustradas com fotos e escritas sem egotrips, com boa análise da obra do Terço. O livro presta bom serviço à memória musical brasileira por mostrar que, ao longo da década de 1970, O Terço também manteve hasteada alta a bandeira do rock brasileiro.
A impressão que ficou para a história foi a de que somente Raul Seixas (1945 – 1989) e Rita Lee eram roqueiros brasileiros conhecidos nos anos 1970, tendo as outras bandas e artistas ficado relegados aos subterrâneos do mercado. Essa impressão não está de todo errada, mas O Terço, por exemplo, jamais atuou no underground.
Sem alarde, mas com a exposição dos fatos e com a reprodução de reportagens e críticas sobre o grupo, a narrativa do livro O Terço – 50 anos deixa claro que os discos do Terço jamais foram ignorados pela mídia (sobretudo a carioca e a paulista, historicamente habituadas a ditar tendências e a propagar ídolos) e pelo público, tendo esses discos sido desprezados somente pelas gravadoras multinacionais.
Mesmo jamais tendo chegado ao mainstream, como Raul e Rita, O Terço fez shows em grandes espaços como o carioca Teatro João Caetano, onde provocou filas em 1976 com a temporada de duas semanas do espetáculo baseado no álbum Casa encantada, sucessor do aclamado Criaturas da noite.
Foi na época áurea da banda, então formada por Sérgio Hinds (guitarra), Sérgio Magrão (baixo), Luís Moreno (1947 – 2012) (bateria) e Flávio Venturini (teclados e viola), músico que entrou no Terço em 1974, a partir de indicação de Milton Nascimento.
Venturini já participou do álbum – Criaturas da noite, arquitetado desde 1974, mas lançado somente em setembro de 1975 pela gravadora nacional Copacabana – que ampliou o público do Terço e gerou o culto ao grupo a partir da guinada do trio rumo ao rock progressivo sem perder de vista o rock rural.
Marcado pelo sucesso da canção Hey amigo (Cezar de Mercês, 1975), esse período de auge artístico e comercial do Terço durou até 1977.
Com a saída de Flávio Venturini em 1977, O Terço reintegrou Cezar de Mercês ao grupo e passou a contar com o pianista Sérgio Caffa (1949 – 2012), músico decisivo para a mudança de sonoridade experimentada no quinto álbum da banda, Mudança de tempo, lançado em março de 1978.
Desde então, entre idas e vindas, O Terço adquiriu “múltiplas faces”, como Sérgio Hinds e Nelio Rodrigues enfatizam já no título da quarta das cinco partes do fluente livro.
Contudo, se O Terço teve uma cara ao longo de 50 anos (que, a rigor, já são 51), essa face é a de Sérgio Hinds, o cara, hábil ao recontar em livro história entranhada na memória afetiva de quem cultuou o rock feito no Brasil ao longo da década de 1970.




Matéria do blog do Mauro Ferreira para G1