© Reuters Fumaça em Lytton, no oeste do Canadá, no dia seguinte a incêndio que consumiu quase toda a cidade, em 30 de junho de 2021


Bastaram 15 minutos para que Lytton pegasse fogo por completo.

Era o final do mês de junho, verão no hemisfério Norte, e a pequena comunidade no Estado da Colúmbia Britânica já estava no noticiário de todo o país, por registrar a temperatura mais alta já vista no Canadá: 49,6°C.

A moradora Meriel Barber lembra como o clima estava "quente demais para se descrever".



"Eu comecei a levantar da cama às 4h da manhã para fazer coisas fora de casa, porque era impossível fazê-las no meio do dia", ela conta.

Muita gente evitava sair às ruas por causa do calor, e Lytton ficou ainda mais calma do que se costume.

Apenas 250 pessoas moram na pequena vila, e as reservas indígenas ao seu redor abrigavam mais mil moradores. A pitoresca comunidade é localizada a 260 km ao noroeste de Vancouver, no ponto de encontro de dois rios, o Thompson e o Fraser.

Moradores descrevem o local como uma comunidade de laços próximos, imersa na história indígena. Era um lugar onde "todo mundo conhece todo mundo", nas palavras de um deles.

Barber se mudara para lá havia uma década, e imediatamente se sentiu em casa.

"Encontrei um lugar onde me senti bem-vinda de muitas formas", lembra. "Chamo-as (pessoas vizinhas) de família."

No dia do incêndio, em 30 de junho, Barber estava focada em voltar para casa depois do trabalho quando viu uma chamas e fumaça vindo da cidade.

Incêndios são comuns nos verões da Colúmbia Britânica, então Barber não deu muita atenção, achando que as chamas logo seriam controladas.

Mas, depois de devolver seu veículo de trabalho e regressar à cidade, viu um carro de bombeiros passar disparando seu alarme e bloqueando a estrada. Um dos bombeiros lhe avisou que Lytton estava pegando fogo.

© Meriel Barber Meriel Barber, moradora de Lytton há uma década, perdeu quase tudo no incêndio - inclusive recordações de seu filho, já falecido

"Eu olhava para ele mas não conseguia entender o que ele dizia. Eu havia visto o fogo no caminho e não estava por todos os lados, estava em um só lugar", ela conta.

No acostamento da estrada ao lado de outros moradores, Barber conseguiu fazer dois telefonemas antes que os celulares deixassem de funcionar. O primeiro foi para saber se alguns amigos idosos dela estavam em segurança. O segundo era para pedir que seu senhorio pegasse seu gato, dentro de casa - ela o havia trancado lá dentro para protegê-lo do calor externo.

Nas seis horas seguintes, ela esperou por notícias enquanto assistia a sua cidade incendiar.

Nesse intervalo, a moradora N'kixw'stn James, que passou a vida em Lytton, estava finalizando seu banho e assistindo TV quando um homem entrou em sua casa gritando: "você precisa sair daqui. Lytton está pegando fogo".

James, de 76 anos, correu para o quarto e trocou seu pijama por roupas. Pegou uma sacola com itens para o caso de uma evacuação, agarrou sua bolsa, chaves do carro e celular, enquanto homem gritava para que ela saísse.

"Quando pisei fora de casa, vi uma tempestade de cinzas quentes", ela recorda.

Ela correu para dentro do carro, e o volante estava tão quente que queimou sua mão.

"Comecei a dirigir para longe da minha casa. Passados alguns metros, ouvi uma explosão. Meu tanque de gás propano havia explodido."

James seguiu dirigindo, tentando encontrar algum caminho seguro em meio à fumaça que bloqueava sua visão. Quando se abrigou, recebeu ajuda de uma enfermeira, que cuidou de seus braços, pernas e rosto - todos queimados pelas cinzas.

© Nonie McCann Incêndio devastou Lytton em questão de minutos; caso virou tema de campanha nas eleições canadenses

Do outro lado do rio Fraser, Nonie McCann assistia à devastação.

Ela havia recebido um telefonema de um vizinho por volta das 17h, perguntando se ela sabia de onde vinha a fumaça nos arredores de Lytton. Daí soube que a cidade estava em chamas, e um amigo lhe perguntou se ela e seu marido conseguiriam ajudar, erguendo uma espécie de estação de bombeamento de água.

"Ficamos devastados ao ver as casas inteiras sendo engolidas pelo fogo", lembra. "Eram casas de pessoas que conhecíamos. Não tivemos sorte em começar a bombear água, e a fumaça era muito intensa. Então tivemos que voltar."

Ela diz que vivenciou uma onda de emoções: "o horror absoluto diante do que eu estava vendo, imensa dor pela perda catastrófica, e preocupação, torcendo para que todos tivessem conseguido escapar em segurança".

Sem conseguir ajudar, ela sentou e assistiu de sua margem do rio enquanto "edificação atrás de edificação era levada pelas chamas" e helicópteros jogavam água.

O mais difícil, diz ela, era não conseguir se comunicar com as pessoas.

em outras partes da Colúmbia Britânica, parentes de moradores de Lytton também esperavam ansiosamente por notícias.

Verna Miller soube do incêndio por seu marido, que havia assistido a tragédia pela TV.

O casal se conhecera em Lytton, e a irmã mais velha de Miller ainda morava na cidade. Uma prima que morava a 30 minutos de distância correu para a cidade para ajudá-la.

Quando a prima chegou, a irmã de Miller ainda não sabia que o incêndio estava devastando sua comunidade.

Ambas conseguiram sair a tempo de escapar do fogo que destruiu a casa e tudo lá dentro.

De volta ao acostamento da rodovia onde Meriel Barber aguardava, ela conseguiu que amigos a abrigassem em uma casa que havia sobrevivido ao fogo.

Ela passou os dias seguintes ali, sem acesso a água potável ou eletricidade, e usou um fogão de propano para cozinhar.

Ela soube, então, que sua casa havia sucumbido ao incêndio, com seu gato dentro.

90% da cidade foi destruída
Segundo Brad Vis, membro do Parlamento local, toda a tragédia se desenrolou em apenas 15 minutos de incêndio. No total, cerca de 90% da cidade foi destruída, e muitas das reservas de mata ao seu redor foram completamente queimadas.

Um casal idoso morreu.

Vis diz que se tratou de "uma situação sem precedentes - mesmo nesta nossa parte do mundo, onde incêndios ocorrem anualmente".

"Alguns dos socorristas com quem falei me disseram que nunca tinham visto uma comunidade incendiar por inteiro como aconteceu em Lytton".

O caso se tornou emblemático em meio a um verão de ondas de calor mortais e outros incêndios, colocando as mudanças climáticas no topo dos debates da eleição canadense desta segunda-feira (20/9), convocada pelo premiê liberal Justin Trudeau na tentativa de assegurar uma maioria no Parlamento - estratégia que pode fracassar, uma vez que seu partido enfrenta uma disputa acirrada com os conservadores.

Na campanha, candidatos diversos usaram a tragédia de Lytton como uma advertência sobre os efeitos do aquecimento global, enquanto as origens exatas do incêndio ainda são investigadas.

"O custo da inação (contra as mudanças climáticas) foi que uma cidade inteira acabou destruída por um incêndio florestal", argumentou Jagmeet Singh, líder do partido social-democrata NDP.

© Reuters Destroços do incêndio em Lytton, uma comunidade pequena e descrita como próxima e hospitaleira

Ondas de calor estão se tornando mais comuns e extremas por causa das mudanças climáticas induzidas pelo comportamento humano, e esse tempo quente e seco favorece incêndios.

O mundo já esquentou cerca de 1,2°C desde que começou a era industrial, e as temperaturas continuarão a subir se governos ao redor do mundo não fizerem cortes drásticos nas emissões de gases poluentes.

Em Lytton, a comunidade deslocada agora tenta se reerguer - inclusive tentando fazer a nova vila mais resistente a incêndios e outros desastres naturais, e menos dependente em fontes externas de energia.

"Esta [e uma oportunidade rara de criar uma comunidade com uma visão para o futuro: levando em conta eventos climáticos extremos, trabalhando em colaboração com povos indígenas e não indígenas", argumenta Nonie McCann.

"Haverá enormes lutas e dificuldades a superar, mas, passo a passo, dia após dia, vamos celebrar nossa comunidade novamente."

Meriel Barber, enquanto isso, está vivendo dentro de sua van. Ela conseguiu recuperar alguns itens dos destroços de sua casa - uma escultura, sua caixa de joias e um pequeno trailer -, mas quase todo o restante foi reduzido a cinzas.

"Tenho um filho que já morreu, e todas as recordações que eu havia guardado dele, (junto com) uma adorada colcha feita pela minha mãe e mais trabalhos artísticos feitos por mim ou por outras pessoas, tudo eu havia guardado com tanto cuidado ao longo dos anos - tudo isso se foi e não pode ser substituído", ela lamenta.

Mas, apesar das "camadas de luto" vivenciadas com o incêndio, ela diz que, junto com a comunidade, está pensando no futuro.

"O lema é 'Lytton forte' e estamos olhando para a frente."


Com informações de BBC News