A Festa de Setembro ainda hoje a bonita e bem organizada, frequentada com todo o fervor, apesar da pandemia, mas, que me perdoe o Padre Joácio, nos velhos tempos era muito melhor.

Há uns cinquenta anos a Festa de Setembro se restringia à parte religiosa com as noventas e a quermesse na frente da Catedral. Além disso havia os brinquedos: carrosséis, rodas gigantes, ondas, jujus e outros brinquedos. Em algumas barracas se apostava nas roletas, se treinava o  tiro-a-alvo com direito a prêmios, se tentava lançar carteiras de cigarro com uma rodela, ou se concorria a prêmios nos bingos. .

Nas quermesses se bebia cerveja e uísque e se disputavam galinhas assadas e outros brindes nos leilões, muitas vezes com lances muito alto, principalmente em época de política. E cada noite tinha os seus noitários que disputavam para ver qual noite rendia mais para o apurado da festa.


O povão e as classes mais ricas se distribuíam pelas barracas populares, já que os ricos só iam para a quermesse nos dias em que eram noitários. Havia algumas barracas de comes-e-bebes esparsas nas adjacências da Epitácio Pessoa e Bossuet Wanderley, disputando espaço com os parques de diversões, acompanhando os filhos que iam nos brinquedos.


Havia, entretanto, uma concentração de barracas, no que se chamava de Bagaceira. Eram barracas com paredes e cobertas de palha de coco, onde os mais abonados financeiramente se juntavam para beber. As bebidas eram as comuns (uísque, cerveja e uma boa pinga), mas os tira-gostos eram os mais diversos possíveis: rolinha assada, preá torrado, queijo de coalho assado, galinha torrada, guiné, peru, peba, tatu torrados, peixe assado e outros petiscos bem sertanejos. Com direito a uma “cabeça de galo”, ao fim da noitada, para prevenir a ressaca.


As barracas geralmente eram das meninas da “Cajarana”, montadas por seus patronos. Lá se armavam redes e camas, mas, ao contrário do que muita gente pensava não se destinavam à prática do amor, mas para os proprietários dormirem depois do fim da festa para ficarem vigiando o material de cozinha, os alimentos e as bebidas que sobravam de um dia para o outro.


A Bagaceira era frequentada por todos. Como estudante sai muitas vezes com a turma depois da aula noturna para dar uma passada na Bagaceira. E quem podia ia ficando para comer e beber.


Na Bagaceira nunca encontrei um padre ou pastor, mas era comum encontrar juiz, promotor, médicos, advogados, engenheiros, bancários, comerciantes, industriais e boêmios de toda espécie, além dos autônomos que guardavam um dinheirinho para gastar durante a festa.


Nos meus tempos de estudante, a Bagaceira ficava na rua Bossuet Wanderley, ao lado da Casa de Cícero Torres, ali onde depois foi a Telpa e a Telemar. Depois a Bagaceira passou para a rua que fica entre o JK e o Patos Tênis Clube e, por fim, em anos mais recentes, foi para a rua João da Mata, na frente da antiga usina de Araújo Rique.


Em quase todo este período, da administração de Edmilson Motta até a última gestão de Dinaldo Wanderley, o encarregado de organizar a Bagaceira era o secretário Chico Sátiro, verdadeiro perito nessa organização. Ali ele se sentia em casa, boêmio que sempre foi. Se você quiser saber da história da Bagaceira, pode procurar Chico Sátiro que ele é a verdadeira memória daquela época, apesar dos seus noventa anos de hoje.


A Bagaceira deixou muitas saudades nos antigos patoenses e visitantes de Patos, durante a Festa de Setembro. Ainda fui a uma das últimas delas, já próximo a Araújo Rique onde tomei um cervejinha com preá torrado na companhia no meu colega de trabalho no Ministério, Evilásio Moreira, com direito a doar umas latinha de Pitu a uns amigos que apareceram por lá com olhos cobiçosos e sem dinheiro no bolso. Meu velho amigo Sargento Mariano é testemunha disso.


De longe, quase chorei quando vi a foto que ilustra esta matéria. Saudade dos velhos e bons tempos em que ainda se bebia até nas barracas da quermesse, onde hoje só tem refrigerante e nem a cerveja tem vez. E o preá torrado e a rolinha assada desapareceram por conta da preocupação com o meio ambiente.


* Luiz Gonzaga Lima de Morais é jornalista e comanda o programa e blog Revista da Semana