Por:
Luiz Gonzaga Lima de Morais


Nós pagamos um alto preço por ficarmos idosos. A vista enfraquece, a memória esquece, o ouvido emouquece, a junta endurece, a garganta enrouquece, do amor (quem merece!) e todo o corpo padece. Mas o que mais nos causa dor é a perda dos entes queridos. Quanto mais velhos ficamos, mais perdemos nossos parentes, nossos amigos, nossos colegas. Ao redor de nós, vai ficando um deserto. Mas, como paliativo, restam-nos as lembranças que nos ajudam a viver no isolamento que nos vai rodeando.

As lembranças vão se acumulando ao longo da vida. As prazerosas e as dolorosas. As primeiras nos ajudam a suportar a estas últimas. Meu saudoso tio Inácio Paca me dizia: “Aproveite a vida, para quando ficar velho ter ao menos do que se lembrar”.  Santas palavras. É o que nos consola na velhice.




Na madrugada desta quinta-feira, 02 de setembro de 2021, tomei conhecimento, via Whatsapp, do falecimento de mais um amigo. Tenho perdido, nos últimos tempos, muitos amigos, alguns deles dos mais queridos, mas na sua maioria deles, eram amizades que fomos fazendo ao longo da vida.


A morte de Estácio Daniel de Lucena, conhecido por alguns como Papai, por outros como Estácio do Sandalhão, por terceiros (não sei por que) de Pai Nena, me trouxe um sentimento diferente. Ele era para mim simplesmente o Nego Nena de minha infância, e sua morte doeu mais do que quase todos os amigos e muitos dos próprios parentes. Nena me lembrava a minha infância, pobre mas feliz, na rua dos Dezoito do Forte, onde nasci e me criei. Tive e ainda tenho amigos daquela época, mas Nena era um caso especial. 

Morava a duas casas da minha, filho do barbeiro Chico Daniel, profissional que atendia num salão onde hoje é o Santander e de dona Maria, Irmão de Terezinha, Zélia, Nego Passo, Nego Eustácio e outros cujos nomes a memória em declínio esquece. Mas, como disse antes, Nena era especial. Juntos jogamos bola de meia no meio da rua, jogamos bila, castanha e triângulo, jogamos barra-a-barra num beco ao lado de minha casa. 

Nena tentava justificar para meu pai, mordido com jogo na rua, que o jogo de bola de meia no meio da rua, então de terra batida, era pacífico e que já tínhamos feito os deveres de casa. Embora nem sempre me livrasse dos castigos do meu pai. Mas, na companhia de Nena e de outros companheiros que só a saudade registra, vivi os meus primeiros nove anos como moleque de rua na Dezoito do Forte de minha infância. 

Aos nove anos fui para o Seminário, onde passei seis anos. Até os treze anos, voltava para minha casa na rua dos Dezoito, mas já não jogava mais bola de meia, restando apenas os papos na calçada para atender a curiosidade dos amigos sobre como era ser seminarista. 

Continuei a estudar pela vida a fora. Nena iniciou-se na profissão que praticamente o acompanhou pela vida afora. Foi ser sapateiro, profissão mais comum para a garotada das ruas Padre Anchieta, dos Dezoito, Augusto dos Anjos e adjacências. Dela só escapamos os que conseguimos estudar. Perdi-o de vista. Soube que fora morar na Bahia, onde como muitos outros conterrâneos praticava a profissão.
 
Há uns poucos anos, reencontrei-o já no seu Sandalhão, na rua Peregrino de Araújo, mais ou menos por trás da casa onde se criara. Fazia conserto de calçados e fabricava alpargatas e sandálias, para os inúmeros clientes que foi amealhando. Nas horas vagas, jogava um “relancim” ou um dominó, com muitos daqueles amigos da nossa infância ou novos moradores do nosso trecho. E ficava sempre disponível para aquele papo com os amigos. Antenado com a política, com o futebol e com as coisas do dia a dia da nossa querida Patos.

Como aquele trecho da Peregrino de Araújo faz parte do meu trajeto para o quitinetezinho que me acolhe em Patos, vez por outro parávamos no Sandalhão, para atualizarmos o papo. E lembrávamos da nossa infância. Relembrávamos fatos que vivemos em comum naquela infância, pobre mas feliz e tranquila. Ele lembrava do meus pais e das minhas irmãs, pedia notícias delas, já que os velhos se foram. E me dava notícias dos remanescentes da sua família e dos que já haviam morrido. Dava-me notícia da esposa, dona Eulália, uma parenta minha lá do Teixeira, e me falava dos seus. Sua morte¸ ainda firme e forte, mexeu com meus sentimentos, Morreu mais que um amigo, morreu a lembrança de uma fase feliz de minha vida

Aqui quero deixar a minha homenagem ao velho amigo Nena de Chico Daniel. Nascido em 1945, era mais velho do que eu, e a terrível COVID o levou. Cumpriu sua missão, mas  deixou muitos amigos pesarosos. Descanse em paz, amigo. Para os parentes e amigos, minhas condolências. Para nós uma lembrança a menos, uma saudade a mais. Adeus, Nego Nena!


* Luiz Gonzaga é Jornalista