Com a proximidade da liquidação do empréstimo bilionário obtido para a sua construção, a Usina de Itaipu terá redução significativa em sua tarifa em 2023. A previsão é que o valor atual de US$ 22,60/kw por mês caia para cerca de US$ 10, segundo o diretor de coordenação Luiz Felipe Carbonell.

Os financiamentos feitos para colocar a usina de pé totalizaram mais de US$ 27 bilhões. Desse total, resta, ainda, R$ 1,4 bilhão a ser pago, ao longo de 2022. Por isso, a expectativa é que, no ano que vem, já haja uma leve redução, de cerca de US$ 4. Ao contrário da maioria das usinas brasileiras, a unidade de cobrança de Itaipu é por potência, não por quantidade de energia fornecida (MWh).


A precificação em dólar da energia gerada por Itaipu foi a alternativa encontrada pelos governos brasileiro e paraguaio para facilitar a gestão financeira da empresa à época do acordo diplomático firmado entre os países. “Era mais prático ter o parâmetro em dólar do que em guarani [moeda paraguaia] ou cruzeiro. Seria difícil trabalhar com uma empresa com duas moedas diferentes, inflações diferentes e, ainda, com a flutuação do câmbio para cada uma”, disse o diretor-geral brasileiro de Itaipu, João Francisco Ferreira.

Pelo acordo assinado entre os países, a energia de Itaipu é fornecida igualmente: metade para o Brasil, e a outra metade para o Paraguai. No entanto, o país vizinho não utiliza esses 50% a que tem direito. Por isso, a energia que sobra é vendida para o Brasil e injetada no Sistema Interligado Nacional (SIN).

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A capacidade instalada de Itaipu é de 14 GWh. Mas na 3ª feira (26.out.2021), por exemplo, às 14h25, quando a reportagem esteve na usina, a geração era de cerca de 10 GWh. Desse total, apenas 1,8GW estava sendo destinado ao Paraguai. A diferença entre os 5GW a que tem direito e esse consumo é a parcela vendida para o Brasil.

Confira outros dados da operação da usina:

Área alagada: Itaipu possui um reservatório, chamado de área alagada, de 1.350 k². Quando está totalmente cheio, a água atinge a cota de 220,5 metros de altura (ou seja, acima do nível do mar)
Queda d’água: quando liberada a água para cada uma das turbinas, a vazão da queda d’água é de 700m³ por segundo. 

A altura da queda varia, mas, em geral, é de cerca de 120 metros.

Barragem: o comprimento da barragem é de 8km

Negociação para revisão do tratado só em 2023

Em agosto de 2023, termina o prazo de 50 anos em que não havia permissão, tanto para o Brasil quanto para o Paraguai, para alterações do chamado do anexo C do tratado, que contempla temas como tarifa e comercialização da energia. Segundo Ferreira, os dois países estão debruçados sobre o tema, mas só devem se sentar à mesa para negociar no início de 2023.

“Existe a preocupação se o Brasil está atrasado. Não está. Estamos no momento certo. Nós consideramos que não é bom começar antes da hora, que o melhor é conduzir a negociação a partir de 2023. Até lá, nós vamos construindo cenários. De qualquer forma, os governos conversam constantemente”, disse o diretor.

Entre as principais possíveis mudanças estão:

– Liberdade para o Paraguai vender a sua energia: pelo tratado, o Paraguai é obrigado a vender a energia que não utiliza apenas para o Brasil. O país vizinho tem sinalizado, no entanto, que deseja ter liberdade de vender o excedente ou para o mercado livre brasileiro ou para a Argentina, por um preço maior do que recebe do Brasil.

– Alteração da moeda da tarifa: Com o fim dos financiamentos, em dólar, os dois países podem avaliar a viabilidade de a tarifa da usina deixar de ser precificada pela moeda americana. Para isso, é necessária uma solução contábil que permita a coexistência do real e do guarani na contabilidade da operação da usina.

– Implantação de projetos de geração de outras fontes: O tratado entre os dois países não permite a implantação de projetos de geração de outras fontes na área da usina, como, por exemplo, a instalação de painéis solares sobre o espelho d’água do reservatório.

– Rendimentos da usina: pelo acordo, Itaipu não pode ser deficitária e nem gerar lucro. A partir de uma revisão consensual entre Brasil e Paraguai, envolvendo até eventual mudança na comercialização da energia, isso pode ser alterado.

Um grupo de trabalho, criado em 2019 pelo Ministério de Minas e Energia, tem estudado esse e outros pontos que podem ser revisados pelos dois países. Ferreira diz que essa análise cabe ao Ministério de Relações Exteriores e ao Ministério de Minas e Energia. “Mas Itaipu integra esse grupo, fornecendo as informações técnicas. O objetivo do grupo é dar suporte ao Itamaraty para conduzir as negociações”, afirmou o diretor.

A repórter viajou a convite da Usina Binacional de Itaipu para o Poder 360