© Wilton Junior/Estadão Colecionador de fones de ouvido, o youtuber e empresário Leonardo Drummond criou a startup Kuba Audio, que monta fones de ouvido


Quanto você pagaria para ouvir música da melhor forma possível? Se você não acredita muito em limites, talvez seja um audiófilo, que são pessoas que gostam tanto de música (e outros tipos de áudio) que são capazes de gastar muito dinheiro para se realizarem. É um hobby, quase como ser apaixonado por carro, vinhos e viagens.

O produtor rural Sebastian Rojas Nuñez, 45, é uma dessas pessoas, apaixonado por música desde a adolescência. “Em qualquer evento na escola, eu ficava ao lado do som, sempre me chamavam muita atenção os botões, as luzes, e, aos 15 anos, fui autorizado a mexer nos aparelhos”, lembra. 

Tomou gosto pela coisa e, depois de adulto, passou a investir em equipamentos. “Nos anos 2000, consegui juntar dinheiro e comprar meu primeiro aparelho de som”, conta. Daí em diante, Sebastian começou a fazer o que grande parte dos audiófilos faz: comprar um aparelho, usar e vender ou trocar por outro melhor (ou que, ao menos, pareça melhor). “Passei 35 anos da minha vida gastando dinheiro com aparelho de som”, relata. Com isso, dá para imaginar quanto dinheiro ele investiu.

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Segundo ele, o céu é o limite. “Nunca vai existir um que seja o melhor. Há quem gasta mais de R$ 100 mil”, diz. Sebastian faz parte de um grupo de audiófilos no Facebook, em que os membros trocam informações sobre dispositivos, pedem sugestões e vendem ou trocam seus aparelhos.

Ele conta que está tentando se “curar” do que chama de vício, parou de comprar e agora prefere explorar mais as músicas do que os aparelhos em si. “Tenho um sistema honesto que não ultrapassa os R$ 50 mil reais e não estou mais procurando um aparelho de som.”

A paixão por aparelhos de som

O produtor rural Sebastian Nuñez, 45, é apaixonado por música. Depois de gastar muito com aparelhos de som, decidiu investir em apenas um e melhorou sua experiência otimizando seu sistema: colocou duas caixas distantes 3 metros entre si e, quando vai escutar música, fica numa posição formando um triângulo equilátero, sendo ele uma das pontas e as caixas as outras duas.

Também amante de música, o roteirista Ulisses Oliveira, 48, prefere se chamar de entusiasta em vez de audiófilo. O sistema montado por ele custa em torno de R$ 30 mil, todos equipamentos usados, alguns deles com 40 anos. “Valeu muito a pena, mas quem quiser se meter nesse universo tem de estar disposto a gastar”, diz.

Os preços costumam variar muito porque, apesar da eletrônica básica dos equipamentos serem quase as mesmas de 70 ou 80 anos atrás, a tecnologia deu upgrade nas possibilidades. Apesar disso, o consultor de áudio e acústica Fernando Alvim Richard, 63, explica que, “para usufruir bem um equipamento de som, o segredo é a acústica”. “Vai ser melhor, por exemplo, num quarto do que na sala, pelo fato de ter uma cama, armário com porta que dê para abrir”, afirma. Essas coisas ajudam o som a não refletir pelo ambiente, deixando o que chega aos ouvidos mais próximo do que sai das caixas.

© Wilton Junior/Estadão Roteirista Ulisses Oliveira, entusiasta dos sons, tem aparelho de som com caixas, amplificador, pré-amplificador e toca-discos em casa

“Só com um ambiente acusticamente bem-tratado dá para pensar em gastar com um bom equipamento”, continua. Para Fernando, a tecnologia ajudou a transformar, principalmente, a forma como as pessoas escutam música, sendo cada vez mais comum equipamentos inteligentes. Mudou também a fonte sonora que, em grande parte dos casos, é um smartphone ou outro dispositivo digital.

Na cabeça

É aqui que entra outro queridinho dos dispositivos: fones de ouvido. Da mesma forma que algumas pessoas investem em sistemas de som, outras preferem fones, como o youtuber e empresário Leonardo Drummond, 31, que tem 15. “Na adolescência, saía por aí com um iPod e um fone mediano; quando completei 18 anos, comecei a investir.” Passou a testar fones e fazer revisões no Orkut e agora se divide entre os reviews no YouTube e uma startup de fones de ouvido que ele criou, a Kuba Audio. A experiência o ajudou a entender que não é o preço que diz qual fone é melhor.

A ideia é compartilhada pelo redator Vitor Valeri, 28, que tem sete fones em casa. “Você não precisa gastar mil reais para ter uma boa qualidade de som no fone”, afirma. Comprar e testar fones se tornou um hobby para ele desde que adquiriu um modelo importado e conseguiu escutar alguns sons que antes não conseguia.

Nos últimos anos, o mercado de áudio deu um salto. Segundo a The Business Research Company, empresa de pesquisa de mercados, o consumo de equipamentos de áudio deve crescer de US$ 24,59 bilhões em 2020 para US$ 28,54 bilhões em 2021. A demanda por dispositivos de áudio sem fio cresce devido à mudança no comportamento no consumo e à popularidade de dispositivos móveis, diz o relatório.

© Wilton Junior/Estadão Leonardo Drummond, youtuber e empresário, coleciona fones de ouvido para fazer reviews em seu canal de YouTube. Ele também é criador da startup Kuba Audio

De acordo com Leonardo, os avanços são mais nesse sentido. “Em termos de qualidade sonora e de reprodução não existiram avanços tão grandes e não vejo isso no futuro próximo. Existe, sim, nas partes técnicas de cancelamento de barulho ou bluetooth”, opina. Já Vitor acredita que a tecnologia influenciou as novas gerações de fones de ouvido a ganharem cabos removíveis, formatos customizados. Para ele, “a China popularizou a tecnologia dos fones profissionais” e garantiu acesso a alguns produtos mais baratos de boa qualidade.

Escolha

Como escolher bem o fone? Para Leonardo, o primeiro passo é definir o que você quer. “Para ouvir música em casa, o melhor seria um headphone com fio; na rua, um modelo wireless; e para jogar, um headset com microfone”, diz. Em um segundo momento, avaliar o quanto está disposto a gastar. O terceiro passo e, talvez o mais importante, é “olhar para o mercado e buscar avaliações”. Essa última dica é compartilhada por Vitor, que afirma sempre colher opinião em comunidades e grupos. “Até hoje, minha maior fonte de informação vem de fóruns, onde rolam todas as novidades – fora isso, vejo vídeos no YouTube e acompanho as redes sociais das marcas”, conta.


Reportagem de Daniel Silveira para Estadão Conteúdo